Na semana seguinte,
quando o Centro, na sua parte física, permanecia fechado, os benfeitores
espirituais aproveitavam a madrugada para efetuar alertadora conferência sobre
o desejo de dominação das entidades inferiores.
Feita a prece de
abertura, o mentor proferiu estas orientações:
— Irmãos!
O Senhor da Vida nos
concedeu esta Casa Espírita como oficina de trabalho junto às criaturas humanas
dos dois planos.
Temos encontrado,
neste Centro, a alegria do estado, do socorro e do labor espíritas,
possibilitando-nos abençoada oportunidade de serviço cristão, em companhia dos
confrades encarnados envolvidos com o mesmo idealismo.
Contudo, nós, que
permanecemos do lado de cá, temos o dever de ampará-los e conduzi-los por
caminhos retos, respeitando-lhes, obviamente, a faculdade de livre escolha.
O nosso despretensioso
trabalho, na seara de Jesus, tem chamado a atenção dos adversários espirituais
desejosos em aniquilar toda e qualquer disposição de ajuda cristã. No fundo,
são almas enfermas, profundamente necessitadas de atenção e carinho, que se
escondem usando a máscara da maldade que, mais ou menos dia, terá de cair, pois
a lei é de progresso para todos.
Por isso, nossas
atividades encontram-se ameaçadas!
Neste instante,
vários espíritos ainda em aprendizado para o trabalho espiritual se espantaram.
Alguns ficaram temerosos, acreditando que nossos superiores não teriam
disposição e recursos para defesa, o que levou o orientador espiritual a transmitir
as seguintes palavras tranquilizadoras:
— Calma, meus amigos!
Tudo está sob controle. É necessário que nos coloquemos à disposição para
fortalecermos os nossos irmãos em jornada terrena.
Para eles, será uma
extraordinária possibilidade de testemunhar, na prática, tudo aquilo que teorizam
acerca dos ensinos de Jesus. Que seria do aluno se a escola periodicamente não
lhe aplicasse provas?
A sabedoria divina,
através de suas leis, controla tudo, monitora tudo e, num mundo de provas e
expiações, é natural que o mal predomine, experimentando, constantemente, os
que aspiram o título de seguidores de Jesus.
Não há motivo para
medo ou fraqueza moral!
Não estamos
abandonados por Deus; dispomos de fartos recursos espirituais de defesa; temos
ao nosso lado as entidades sublimes que nos apoiam, inspiram e garantem nossa
proteção.
Permanecemos
trabalhando em nome de Jesus; estamos cumprindo, o quanto possível, os
desígnios divinos.
Dispomos de todos
estes recursos, por isso não há motivo de pânico!
Esta será uma batalha
que competirá aos encarnados vencerem, nós, porém, nos limitaremos a
protegê-los, vigiando e orando fervorosamente.
É certo que alguns,
pelos sentimentos que nutrem, não mereceriam sequer nosso concurso; entretanto,
as tarefas que realizam promovem o bem comum e, pelo trabalho bem feito que
executam, ainda que o realizem como “profissionais espíritas” e não como
verdadeiros idealistas, nossa proteção se faz sentir pensando no todo da Casa.
Ainda que estes “profissionais” nada recebam financeiramente, estão sempre em
busca dos elogios, da notoriedade e sempre se irritam quando não são citados.
Esses, infelizmente, apesar de todo o nosso empenho em protegê-los, ainda que
pensando nas tarefas, serão os principais atingidos. Numa atuação isolada, temos
mecanismos para evitar o assédio do mal, mas com uma falange tão bem preparada,
com mentes inteligentes explorando todas as inferioridades humanas, e estes
encarnados vibrando no mesmo padrão, será praticamente impossível salvá-los!
É uma pena que no Templo
da Fraternidade, entre os conhecedores do Evangelho, alguns insistam em ser o
exemplo daquilo que Jesus não ensinou.
Contudo, temos de
compreender que estes irmãos estão em aprendizado, não despertaram ainda, e
agem assim por carregarem n’alma as informações espíritas e não a vivência
delas.
Mesmo assim, nós que
compreendemos mais, devemos tolerá-los, inspirá-los, conduzindo-os para o
caminho do bem, porque é da lei divina fazermos ao outro o que gostaríamos que
nos fizessem.
Não desejamos estar
entre aqueles que apontam as dificuldades criticando maledicentemente, sem
apresentarem propostas de ajuda e renovação. Desejamos cooperar em silêncio,
preferindo ver no semelhante as virtudes que já conquistou, encorajando-o
amorosamente para vencer as próprias dificuldades morais; agradecendo, o quanto
possível, àqueles que, despretensiosa, verdadeira e amorosamente, trabalham em
benefício da Causa Espírita. Para isso, temos a sublime oportunidade da mediunidade,
que nos possibilita irradiarmos centenas de mensagens singelas, aquelas que,
mesmo sem terem condições de serem divulgadas como literatura espírita, calam
fundo no coração dos participantes das reuniões de intercâmbio espiritual.
Muitas vezes, através de mensagens simples é que os espíritos sublimes falam,
porque preferem a simplicidade de coração, os pobres de espírito, os mansos e
pacíficos para servir-lhes de intérpretes.
Por isso, não devemos
desanimar na tarefa de proteção e inspiração espiritual que nos cabe.
Em contrapartida,
possuímos muitos irmãos que, vivendo o Espiritismo, nos possibilitarão atuação
mais direta, acalmando e tranquilizando as mentes encarnadas, quando os
adversários do Evangelho espalharem, pelas mentes despreparadas, o vírus da
fofoca, da intolerância e das disputas.
Estamos acostumados a
semelhantes investidas das sombras e sempre tem prevalecido a bondade divina.
Claro que esta
instituição corre o risco de ser destruída, principalmente se os frequentadores
e trabalhadores se deixarem contaminar pelas influências nocivas dos espíritos
perturbadores. Contudo, temos em vários departamentos da Casa companheiros que
partiram daqui, da nossa esfera, com a missão de efetuar um trabalho espírita
sério baseado na vivência cristã. Se os malfeitores espirituais exploram as
fraquezas humanas, nós podemos estimular as virtudes da alma, afastando, com a
vivência dos ensinos de Jesus, as trevas da maldade.
Será mais um período
de redobrados cuidados, de incessante trabalho; permitiremos a entrada de
certas entidades, para que nossos irmãos em humanidade tenham a condição de
darem testemunho das suas conquistas espirituais.
É verdade que, neste
processo de envolvimento espiritual negativo, muitos se envolverão a ponto de
desistir do caminho, reencontrando-o, mais tarde, quando estiverem amadurecidos
pela vida. Aqueles que guardam os ensinos de Jesus apenas nos lábios, os que
trabalham por vaidade pura, os invejosos, melindrosos que não desejam se
fortalecer, cairão nas teias dos malva dos invasores, porque vibram na mesma
sintonia dos inimigos da verdade. Outros, os trabalhadores discretos,
respeitáveis, desejosos do bem, idealistas, poderão sentir certo envolvimento,
entretanto, saberão fazer brilhar a própria luz, sintonizando com planos
superiores, protegendo-se naturalmente da infiltração das sombras, contribuindo
para a sobrevivência e continuidade deste Centro. Talvez estes tenham o coração
ferido, a alma magoada, mas saberão compreender os companheiros desequilibrados,
perdoando-os por ainda não conseguirem dar o testemunho cristão; e, à medida
que suportarem as agulhadas das imperfeições humanas, haverão de progredir
granjeando naturalmente a simpatia de espíritos superiores.
Não podemos exigir
das criaturas aquilo que não conquistaram. Cada um dá o que possui!
Infelizmente, muitos não sabem valorizar a honra dos testemunhos em favor do
Evangelho. Outros esquecem que a Casa Espírita é um Templo sagrado, onde se
exaltam os valores do Cristo através da fraternidade.
Além do mais,
continuou o mentor mudando o rumo da exposição, centenas de espíritos
enganadores alcançarão libertação; poderemos tocá-los com a mensagem evangélica
convidando-os à transformação moral. Na grande família universal, da qual Deus
é o responsável, ninguém se perderá para sempre! O Pai é realmente sábio,
permite certas infiltrações que, de início, parecem terríveis, exatamente para fazer
a humanidade progredir mais depressa.
Portanto, estejamos
confiantes! Precisaremos encorajá-los no bem, estimulando-os à fraternidade,
quando estiverem no capítulo das provações.
Evitemos os
comentários desnecessários. Permaneçamos, diante destes acontecimentos, em
silêncio absoluto, falando sobre eles o estritamente necessário, a fim de
colocarmos a caridade em ação.
Mensagens preventivas
solicitando mais trabalho, vigilância, tolerância e oração nas tarefas de
benemerência, estão sendo redigidas e posteriormente serão veiculadas através
da mediunidade, com objetivo de esclarecê-los previamente e de modo geral,
sobre as infiltrações espirituais.
Já foram expedidas
convocações para os espíritos protetores de todos os encarnados, que executam
qualquer tarefa neste templo cristão, solicitando comparecimento em reunião de
estudo, onde solicitaremos o concurso deles para vigiarem seus tutelados mais
intensamente, ajudando-os a vencerem os ataques das trevas.
Agora, disse o
tarefeiro finalizando a exposição, me compete alertar pessoalmente os
dirigentes encarnados deste posto de serviço. Quanto a nós, sigamos com tranquilidade,
porém, alerta, guardando confiança em Deus, em nós mesmos e, principalmente,
nos confrades envoltos na matéria densa.
Terminada a
conferência, os trabalhadores do mundo espiritual retiravam-se em silêncio
absoluto, dedicando-se aos labores de rotina, quando Castro, o presidente
encarnado do Centro, acompanhado de Israel, o diretor das atividades doutrinárias,
apresentaram-se desdobrados do corpo, demonstrando no olhar expressão de grande
preocupação.
Livro: Aconteceu na Casa Espírita
Emanuel Cristiane/Nora
Francisco
Rebouças
