Em todos os quadrantes de nossa “casa planetária”, um acontecimento
natural ocorre incessantemente, ainda inaceitável pela maioria esmagadora das
criaturas: a morte.
Quando em plenitude de saúde, os nossos pensamentos estão sempre
voltados para as lutas do dia-a-dia, dirigidos às atividades rotineiras do
trabalho ou do lazer, e esse inevitável fenômeno
dificilmente é lembrado ou analisado seriamente.
Inclusive, há quem diz que prefere – mesmo com tempo disponível para
perquirições, além das rotineiras, ou já na senectude – não pensar na morte! Se
tudo está bem, porque cogitar do assunto?
Consequentemente, a morte nos colhe sempre de surpresa.
Diante de um fato inevitável, que ocorrerá conosco e com nossos entes
amados, a lógica recomenda-nos preparar para enfrentá-lo. Enfrentar e aceitar o
acontecimento com o Máximo de equilíbrio possível, que só poderá ser alcançado
com a compreensão plena das leis que regem o fenômeno. Não podemos ir de encontro à Leis da Natureza, pelo contrario, o
bom-senso aconselha-nos o estudo e a meditação das mesmas.
É indiscutível que a extinção da vida física, embora represente a
execução de uma lei, que atinge a todos os seres vivos, permaneça inaceitável,
e, inclusive temida pela maioria das pessoas.
Quais são as causas do temos da morte?
Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, analisando tão
palpitante e sempre atualizado tema, fez alentado estudo do qual focalizaremos
os tópicos, a nosso ver, fundamentais:
a) “A crença da imortalidade é intuitiva e muito mais generalizada do
que a do nada.
Entretanto, a maior parte dos que nele creem apresentam-se-nos
possuídos de grande amor às coisas terrenas e temerosos da morte! Por que?
b) Este temor é um efeito da sabedoria da Providência e uma consequência
do instinto de conservação comum a todos os viventes. Ele é necessário enquanto
não se está suficientemente esclarecido sobre as condições da vida futura, como
contrapeso à tendência que, sem esse freio, nos levaria a deixar prematuramente
a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento.
Assim é que, nos povos primitivos, o futuro é uma vaga intuição, mais tarde
tornada simples esperança e, finalmente, uma certeza apenas atenuada por
secreto apego à vida corporal.
c) À proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temos da
morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, aguarda-lhe o fim
calma, resignada e serenamente. A certeza da vida futura dá-lhe outro curso às
ideias, outro fito ao trabalho; antes dela nada que se não prenda ao presente;
depois dela tudo pelo futuro sem desprezo do presente, porque sabe que aquele
depende da boa ou da má direção deste. A certeza de reencontrar seus amigos
depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só
fruto do seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência,
perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas
transitórias da vida terrestre. A solidariedade entre vivos e mortos faz-lhe
compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade têm
desde então um fim e uma razão de ser, no presente como no futuro.
d) A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do
futuro. A vida futura deixa de ser hipótese para ser realidade. O estado das
almas depois da morte não é mais um sistema, porem o resultado da observação.
Ergueu-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade
prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção
engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua
situação; aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases
da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim a todas as peripécias da via de
além-túmulo.”
(KARDEC, Allan – O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o
Espiritismo. 21 ed., ver., traduzida
do francês por Manuel J.Quintão, Rio de Janeiro, FEB [1974] cap. II).
O vale da morte nunca foi uma barreira intransponível, separando-nos de forma absoluta daqueles que nos precederam na viagem de retorno à Pátria Espiritual.
E, consequentemente, as manifestações dos Espíritos se fizeram sentir
em todas as épocas da Humanidade, ora mais, ora menos ostensivamente,
alertando-nos para as realidades extrafísicas.
Walter Perrone é mais um habitante do chamado Mundo Invisível que nos
vem erguer o véu da vida espiritual, expondo-nos a sua nova situação com
características pessoais e marcantes, além de citar fatos e nomes,
desconhecidos totalmente do médium, somente identificáveis pelos seus íntimos.
Com outras palavras, diremos que a sua carta veio pelo correio
mediúnico com o selo da autenticidade.
A habitual repulsa ao fenômeno da morte frequentemente assume
proporções de desespero e de revolta nas situações em que os nossos entes
queridos são atingidos por ela inesperadamente, principalmente quando de forma
violenta.
As desencarnações violentas constituem um tema de estudo dos mais
oportunos na época atual.
Quem assiste a esses dolorosos acontecimentos ouve sempre as
angustiantes exclamações:
- Não posso conformar-me com essa morte!
- Meu Deus, que infelicidade caiu sobre minha família!
- Por que aconteceu essa tragédia, logo comigo?
É a dor dilacerante da separação entre criaturas amadas que amarfanha
os corações e impulsiona as mentes dos que ficam, diante dos que partem, a
clamar aos céus suplicando, muitas vezes, com o timbre da revolta, uma resposta
ou um consolo que possa atenuar os seus sofrimentos.
O desenlace do jovem Walter, como sabemos, ocorreu de forma
inesperada.
Como ele viu o acontecimento, do
outro lado da vida, após seis meses?
- Tudo que sucedeu veio pelo melhor que nos
podia buscar. Aos poucos vou estudando os assuntos para compreendê-los. Vou
demorar a saber tudo, porque para isso, amados meus, será preciso tranquilidade
para conhecer as situações e reconhecer-nos dentro delas, mas saberemos tudo no
momento oportuno. ...Meu Deus, a vida é maravilhosa, e sublime também é a dor
que nos desperta a iluminar-nos com a benção de nova compreensão.
Evidentemente, nessa época, Walter já havia recebido lições valiosas
de Mentores Espirituais, permitindo-lhe afirmar que tudo sucedeu pelo melhor,
para si e para a família.
Quais teriam sido essas lições?
O ponto de partida para o estudo do problema, em tela, é a compreensão
de que Deus, Nosso Pai, estabeleceu leis universais – sábias, justas e
misericordiosas – norteadoras dos nossos destinos, leis totalmente voltadas
para o nosso Bem, permitindo-nos um constante progresso espiritual.
Basta compreendermos um dos princípios que rege a nossa evolução
espiritual – a lei da reencarnação – para que o horizonte de nosso entendimento se dilate
consideravelmente frente às dores físicas e morais e às aparentes injustiças do
nosso mundo.
Somos Espíritos imortais, encarnados ou desencarnados, que, através da
lei dos renascimentos, caminhamos para a perfeição. A evolução é eterna,
gradativa, exigindo de cada um de nós contínuo esforço pela aquisição do amor e
da sabedoria.
Assim, entendemos que em cada nova imersão no casulo da carne,
exteriorizamos as virtudes carentes de maior burilamento, e as más tendências
que necessitam de correção, trazidas do pretérito.
Todos esse processo evolutivo não se desenvolve ao acaso. O acaso não
existe.
Na irrefreável marcha do progresso espiritual, somos influenciados por
condições orgânicas e ambientais: das quais o nosso modo de pensar, sentir e
agir dependeria, exclusivamente, segundo a corrente fisiológica do determinismo. A atuação
desses fatores é indiscutível, mas, além deles, há o nosso “eu” espiritual que
pensa e age influenciando, reciprocamente, o próprio veiculo físico e o
ambiente que o cerca.
Desta forma, atuamos com um livre-arbítrio
que nos é peculiar, facultando-nos a escolha entre
o bem e o mal. Embora relativa, tal liberdade nos torna responsáveis pelos
nossos atos, que, em todos os dias, participam consideravelmente na
estruturação do nosso destino.
Há o determinismo e o livre-arbítrio, ao mesmo tempo, na existência
humana?
Em síntese admirável, Emmanuel nos responde:
“Determinismo e livre-arbítrio coexistem na vida, entrosando-se na
estrada dos destinos, para a elevação e redenção dos homens.
O primeiro é absoluto nas mais baixas camadas evolutivas, e o segundo
amplia-se com os valores da educação e da experiência. Acresce observar que
sobre ambos pairam as determinações divinas, baseadas na lei do amor, sagrada e
única, da qual a profecia foi sempre o mais eloquente testemunho.
Não verificais, atualmente, as realizações previstas pelos emissários
do Senhor há dois e quatro milênios, no divino simbolismo das Escrituras?
Estabelecida a verdade de que o homem é livre na pauta de sua educação
e de seus méritos, na lei das provas, cumpre-nos reconhecer que o próprio
homem, à medida que se torna responsável, organiza o determinismo da sua
existência, agravando-o ou amenizando-lhe os rigores, ate poder elevar-se
definitivamente aos planos superiores do Universo.” (XAVIER, Francisco Cândido –
O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 6. ed., Rio de Janeiro, FEB [1976] questão
132).
Analisando, detidamente, todas estas causas que traçam os rumos do
nosso destino, chegaremos a várias e importantes conclusões, tais como:
1. Recebemos, na Terra, o corpo que merecemos e de
que necessitamos.
2. Ao renascermos, o lar que nos acolhe é o melhor
que poderíamos encontrar, pois não só estamos ligados aos familiares por
vínculos consanguíneos, mas fundamentalmente, por laços e compromissos
espirituais tecidos no Mundo Maior e no encadeamento das vidas terrenas,
sucessivas.
3. Em cada nova jornada terrestre, trazemos um plano
de trabalho, organizado no Alto, baseado em nossas necessidades espirituais.
Deste plano constam, invariavelmente, provas e expiações. Provas são as dificuldades e
lutas com vistas à nossa edificação espiritual. Expiações são os resgates de dívidas
do passado.
Não desconhecemos que colhemos no presente o que semeamos no passado, assim
como a semeadura de hoje, facultada pelo livre-arbítrio, define uma obrigação
inevitável de colheita no futuro. É a lei de causa e efeito, regendo as nossas
vidas.
O grande escritor francês, Léon Denis, dá a esta lei também os nomes
de lei de justiça e lei de responsabilidade, conceituando-a assim: “...não é, em essência, senão lei de harmonia;
determina as consequências dos atos que livremente praticamos. Não pune nem
recompensa mas preside simplesmente à ordem, ao equilíbrio do mundo moral como
ao do mundo físico. Todo dano causado à ordem universal acarreta causas de sofrimento
e uma reparação necessária ate que, mediante os cuidados do culpado, a harmonia
violada seja restabelecida.” (LÉON DENIS – O
problema do ser, do destino e da dor. 9. ed., rio
de Janeiro. FEB [1975] p. 168).
É assaz interessante a comparação entre as leis que governam o
equilíbrio do mundo moral com as do mundo físico, pois, assim como leis
cósmicas nos presidem a experiência física, invariáveis leis morais nos
comandam o Espírito imortal.
Definindo com clareza e precisão as consequências dos nossos atos ante
a Vida, Denis escreveu a seguir: “O bem e o mal praticados constituem a única
regra do destino. Sobre todas as coisas exerce influência uma lei grande e
poderosa, em virtude da qual cada ser vivo do Universo só pode gozar da situação
correspondente a seus méritos. A nossa felicidade, apesar das aparências
enganadoras, está sempre em relação direta com a nossa capacidade para o bem; e
essa lei acha completa aplicação nas reencarnações da alma. É ela que fixa as
condições de cada renascimento e traça as linhas principais dos nossos
destinos. Por isso há maus que parecem felizes, ao passo que justos sofrem excessivamente.
A hora da reparação soou para estes e, breve, soará para aqueles.” (id. Ibid., p. 168).
Sabendo que o Criador desta lei é Todo-Misericordioso, afigura-se-nos
perfeitamente compreensível a pergunta: a lei da prova e da expiação é
inflexível?
Fundamentado no Novo Testamento, Emmanuel nos elucida:
“Os tribunais da justiça humana, apesar de imperfeitos, por vezes não
comutam as penas e não beneficiam os delinquentes com o “sursis”?
A inflexibilidade e a dureza não existem para a misericórdia divina,
que, conforme a conduta do Espírito encarnado, pode dispensar na lei, em
beneficio do homem, quando a sua existência já demonstre certas expressões do
amor que cobre a multidão dos pecados.” (XAVIER, Francisco Cândido – O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel.
q. 247).
Pois, se o Velho Testamento foi o primeiro manancial das revelações da
Lei Divina, onde brilham os dez mandamentos recebidos por Moisés, constituindo
até hoje o fundamento de todos os códigos da justiça terrestre; o Novo
Testamento – escrínio das luzes do Evangelho e das mensagens apostólicas –
veio, no momento oportuno, revelar à Humanidade a outra face da Lei: a do Amor.
Moisés, o austero missionário da Justiça, ensinava: “Olho por olho, dente por
dente”, mas, Jesus, o meigo nazareno, muitos séculos depois esclarecia: “Amareis
a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a vós mesmos. Todas a lei e os
profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” (Mateus, 22:34 a 40).
As causas das aflições humanas, vistas a lume da lei de causa e
efeito, foram analisadas com profundidade por Allan Kardec.
Dividiu-as em atuais e anteriores
à presente existência. As primeiras levam-nos ao sofrimento,
em virtude da nossa própria conduta infeliz na vida atual. Ao comentá-las, foi categórico:
“Os males dessa natureza formam, seguramente, um notável contingente nas vicissitudes
da vida; o homem os evitará quando trabalhar para seu aprimoramento moral e
intelectual.” (KARDEC, Allan – O
Evangelho segundo o Espiritismo. 1. ed., trad.
Do francês por Salvador Gentile, Araras (SP). IDE [1978] cap. V, p. 72).
Abordando as causas anteriores à vida atual, nascidas de males
cometidos em existências passadas, explica-nos o porque de tantas dores,
aparentemente incompatíveis com a justiça e o amor de Deus, tais como: as
doenças congênitas, os acidentes imprevisíveis e inevitáveis, os flagelos
naturais, a perda precoce de seres queridos.
Nesse mesmo capitulo – como fez em quase todos os demais da aludida
obra, que elucida as máximas morais evangélicas em face dos ensinamentos dos
Espíritos do Senhor, ensinamentos que fundamentaram a Codificação da Doutrina
Espírita -, Kardec registrou as “Instruções dos Espíritos” pertinentes ao tema
em estudo. Dentre estas,destacaremos a mensagem de Sanson, intitulada: “Perda de pessoas
amadas. Mortes prematuras”, por focalizar exatamente o assunto de nossas
reflexões.
Sanson nos mostra com argumentação convincente que o desespero e a
revolta, habituais em nossa conduta frente a essas situações, não se
justificam. Consola e orienta os familiares que passam pela compreensível e
inevitável dor da separação, dirigindo-se especialmente às progenitoras:
“Mães, sabeis que vossos filhos bem-amados estão perto de vós; sim,
bem perto; seus corpos fluídicos vos cercam, seus pensamentos vos protegem,
vossa lembrança os embriaga de alegria; mas também vossas dores desarrazoadas
os afligem, porque elas denotam uma falta de fé e são uma revolta contra a
vontade de Deus.” (Op. Cit., cap.
V, p. 86).
As mensagens do Além frequentemente confirmam as palavras de Sanson.
O apelo de Walter Perrone não fugiu a essa orientação, porque a
atitude mental dos que ficam é fundamental para o equilíbrio emocional dos que
partem para a Vida Maior:
- Não chore mais, querida mãezinha, suas
lagrimas chegam a mim e me transtornam.
....Mamãe, não continue assim mergulhada nas ideias da morte,
porque a vida prossegue.
4. O momento da morte, bem como a sua causa, não
estão sujeitos aos chamados “caprichos de um destino cego”, que, se reais,
iriam frontalmente de encontro à misericórdia e à justiça de Deus.
Vimos que o nosso destino é resultante da interação do livre-arbítrio
e do determinismo, pairando sobre estes dois fatores as Diretrizes Superiores
que nos governam a vida.
Por exemplo, um Espírito, antes de um novo mergulho na carne, ciente
dos atos praticados em encarnações anteriores, examina detidamente os seus
débitos e créditos, análise indispensável para novos empreendimentos com vistas
a sua evolução espiritual.
Se chegar à conclusão, com o auxilio de Benfeitores Celestes, que
precisa passar – bem como os seus futuros familiares – pela prova de um
desenlace na infância ou na juventude, este será o seu destino. Um destino
doloroso para todos, mas justo e necessário em face das leis naturais que
norteiam o progresso espiritual da Humanidade.
As diretrizes fundamentais de uma nova encarnação, como a da forma e
do instante do passamento, sempre ficam registradas no subconsciente, ou
melhor, nos “arquivos profundos” da memória espiritual do reencarnante, como
também, muitas vezes, registradas pelos familiares mais próximos, conhecedores
dos fatos antes de se reencarnarem. O grau de fixação de tais informes depende
do nível evolutivo de cada um.
É oportuno lembrarmos também a possibilidade de tomarmos conhecimento
de informações tão importantes, quando já habitamos o vaso físico, em estado de
vigília (pela intuição) ou nos momentos de desprendimento espiritual durante o
sono. Todas estas modalidades de informações, colhidas antes ou depois da
reencarnação, caracterizam a premonição
ou o pressentimento.
Daí os lances de inexplicável serenidade observados em muitas
criaturas, no leito de dor, à beira da morte... a aceitação resignada dos que
cercam o corpo de uma pessoa querida que partiu de forma brusca e
inesperada...como que já esperavam, de há muito, o acontecimento.
Evidentemente, tão só os pressentimentos, não estruturam as reações
emocionais frente aos grandes momentos da existência, mas, atenuando o impacto
dos mesmos, ajudam-nos a resguardar o coração das explosões emotivas e a
imunizar a mente das revoltas intempestivas, permitindo-nos raciocinar e atuar
com o melhor equilíbrio possível.
“- Não há de fatal, no verdadeiro sentido da palavra, senão o instante
da morte. Quando esse momento chega, seja por um meio ou por outro, vós não
podeis dele vos livrar.”
(KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos. 3. ed., trad. do francês por Salvador Gentile, Araras (SP). IDE
[1977] q. 853).
Esta foi a clara e concisa resposta dos Espíritos a Allan Kardec,
quando interpelados sobre a possível fatalidade da morte.
Ao receber este esclarecimento, o Codificador interrogou-os de pronto:
“- Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, nós não morremos,
se a hora não é chegada?” (Id. Ibid., q. 853).
Obtendo a resposta:
“- Não, tu não perecerás, e disso tens milhares de exemplos. Mas,
quando é chegada a tua hora de partir, nada pode subtrair-te dela. Deus sabe,
antecipadamente, de qual gênero de morte tu partirás daqui e, frequentemente,
teu Espírito o sabe também, porque isso lhe é revelado, quando ele faz a
escolha de tal ou tal existência.”
Estas elucidações levam-nos, forçosamente, a meditar sobre questão tão
grave, com implicações profundas em nossa vida.
O Espírito de Sanson, em sua mensagem anteriormente citada (O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 85), também nos chamou a atenção de “sábia previdência” onde pensamos
divisar “a cega fatalidade do destino”, com estas palavras:
“Quando a morte vem ceifar nas vossas famílias, levando sem moderação
as pessoas jovens ao invés das velhas, dizeis frequentemente: Deus não é justo,
uma vez que sacrifica esse que é forte e pleno de futuro, para conservar
aqueles que viveram longos anos plenos de decepções; uma vez que leva aqueles
que são úteis e deixa aqueles que não servem mais para nada; uma vez que parte
o coração de uma mãe privando-a da inocente criatura que fazia toda a sua
alegria.
Humanos, é nisto que vós tendes necessidade de vos elevar acima do
terra a terra da vida, para compreender que o bem, frequentemente, está onde
credes ver o mal, a sábia previdência aí onde credes ver a cega fatalidade do
destino. Por que medir justiça divina pelo valor da vossa? Podeis pensar que o
senhor dos mundos queira, por um simples capricho, vos infligir penas cruéis?
Nada se faz sem um objetivo inteligente e, qualquer que seja ao que se chegue,
cada coisa tem sua razão de ser.”
Como compreender o ato do suicídio em face da fatalidade da morte?
Alguém estaria predestinado a tal tipo de desencarnação?
Não. Jamais há fatalidade para os atos conscientes da vida.
“....confundis sempre duas coisas bem distintas.” – alertam-nos os
Espíritos, respondendo à questão 861 de O Livro
dos Espíritos – “os acontecimentos materiais da vida e os atos da
vida moral. Se, algumas vezes, há fatalidade, é nos acontecimentos materiais
cuja causa está fora de vós, e que são independentes da vossa vontade.
Quanto aos atos da vida moral, eles emanam sempre do próprio homem,
que tem sempre, por conseguinte, a liberdade de escolha; para esses atos, pois,
jamais há fatalidade.”
Este é o mesmo pensamento de Emmanuel, externado ao responder à
incisiva pergunta:
“- É fatal o instante da morte?
- Com exceção do suicídio, todos os casos de desencarnação são
determinados previamente pelas forças espirituais que orientam a atividade do
homem sobre a Terra.
Esclarecendo-vos quanto a essa exceção, devemos considerar que, se o
homem é escravo das condições externas da sua vida no orbe, é livre no mundo
íntimo, razão por que, trazendo no seu mapa de provas a tentação de desertar da
vida expiatória e retificadora, contrai um débito penoso aquele que se arruína,
desmantelando as próprias energias.
A educação e a iluminação do íntimo constituem o amor ao santuário de
Deus em nossa alma. Quem as realiza em si, na profundeza da liberdade interior,
pode modificar o determinismo das condições materiais de sua existência,
alçando-a para a luz e para o bem. Os que eliminam, contudo, as suas energias
próprias, atentam contra a luz divina que palpita em si mesmos. Daí o complexo
de suas dívidas dolorosas.
E existem ainda os suicídios lentos e gradativos, provocados pela
ambição ou pela inércia, pelo abuso ou pela inconsideração, tão perigosos para
a vida da alma, quanto os que se observam, de modo espetacular, entre as lutas
do mundo.
Essa a razão pela qual tantas vezes se batem os instrutores dos
encarnados, pela necessidade permanente de oração e de vigilância, a fim de que
os seus amigos não fracassem nas tentações.” (XAVIER, Francisco Cândido – O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel.
q. 146).
Quando Walter se dirigiu aos familiares, não só deu um eloquente
testemunho da imortalidade, como exalçou um tema básico, fundamental em
qualquer análise atenta, que se faça dos problemas, grandes ou pequenos, de
nossa existência: Deus está em nós e devemos permanecer em
Deus.
Com esta frase lapidar, concitou os seus e a todos nós a meditar, mais
detidamente, nos fatores transcendentes que regem os mínimos fenômenos da vida.
Há séculos e séculos a Humanidade vem recebendo, incessantemente,
esclarecimentos superiores, reveladores da Paternidade e do Amor Infinito do
Criador.
Nunca é demais recordar alguns clarões da Verdade que, vencendo as
barreiras do tempo, iluminam ate hoje o pensamento humano: quando Jesus – o
Guia Espiritual da Terra –, ao ensinar-nos a orar, assim iniciou a súplica a
Deus: “Pai Nosso, que estais nos céus...” (Mateus, 6:9); e o apóstolo Paulo, em seu celebre discurso no
Areópago de Atenas, apesar de enfrentar um ambiente de incompreensão e
hostilidade, não titubeou
em afirmar, referindo-se a Deus: “Porque
nele vivemos, e nos movemos, e existimos.” (Atos,
17:28).
Somente com uma compreensão maior da Providência Divina – a tudo
presidindo, regendo leis sábias e justas com o objetivo de impulsionar-nos para
a perfeição espiritual – é que poderemos enfrentar as duríssimas situações em
que as mortes prematuras e/ou violentas nos colocam. O entendimento desta
Assistência Superior gera em nós paz íntima, e, embora derramemos lagrimas
sinceras à ebulição da dor inevitável da separação, não nos revoltaremos.
Livro:
Amor Sem Deus
Chico
Xavier/Espíritos Diversos
Francisco Rebouças