Meu querido pai, minha querida Mãe, renovo
minhas preces a Deus, rogando que a bênção da paz esteja conosco.
Estou aqui tentando manifestar-me.
Não é fácil.
Pelo menos, por agora, não tenho recursos
para exprimir-me com o desenvolvimento que desejava.
Muitas vezes, li mensagens de amigos
desencarnados que se declaravam auxiliados na grafia das notícias enviadas para
os entes queridos e hoje estou na mesma situação.
Não sei se posso exteriorizar o que sinto.
As palavras são feitas para imagens já
positivamente conhecidas e aceitas pelo senso geral.
E agora o mundo em que me vejo, a dentro
de mim, está renovado na base de emoções e sensações que os conceitos
terrestres não conseguem definir.
Perdoem-me se escrevo de maneira
insatisfatória.
Não há outra saída.
E preciso rogar-lhes serenidade no íntimo
da alma, tanto quanto já conseguimos aparentar calma por fora.
Compreendo, pais queridos, somos como
somos, caminhando para o que nos cabe ser.
Venho pedir-lhes me auxiliem com os
pensamentos de real aceitação.
As lágrimas que ocultam de um para o
outro, as indagações que formulam a sós, com o receio de se ferirem na fé que
nos alimenta chegam a mim, de modo claro e indescritível.
Existe um fio mental entre os que se amam
profundamente, ligando os assuntos da vida, tanto quanto a se estenderem para o
Além, sobre as barreiras da morte.
Sei quanto interpelam os poderes que nos
governam sobre a nossa inesperada separação e ouço-lhes as perguntas e as
observações, quando se isolam um do outro para buscar-me a lembrança, seja numa
foto ou numa página escrita, nesse ou naquele contato, nessa ou naquela
recordação.
Agradeço o apoio que me oferecem, porque
sem meus pais queridos ignoro o que teria sido de mim, entretanto, rogo-lhes
paciência e coragem.
Não admitiam pudesse alguém evitar aquele
assalto violento das forças enfermiças que me separaram do corpo.
Aquela indisposição que parecia ligeira
tomou vulto de repente.
Quando papai se esforçou para que me
expressasse ou dialogasse com mais ânimo, notei que esmorecia.
Minhas sensações por dentro de mim estavam
intactas.
Ouvia tudo o que se falava em derredor do
meu leito.
Reconheci que me transportavam para
socorro no rumo do amparo hospitalar, no entanto, a pouco e pouco, entrei num
sono profundo de que não podia me desvencilhar.
Quanto tempo estive assim, não sei ainda.
Minha memória abrange apenas a metade das
horas claras do dia, naquela quinta-feira feira de luta...
O resto ainda não sei, a não ser que
acordei numa sala de tratamento com a cabeça enfaixada.
Chamei por meu pai, por minha mãe, pedi o
apoio de alguém que me esclarecesse sobre as ocorrências de que não tinha
consciência, mas um enfermeiro me advertiu que fora cirurgiado por um médico, o
doutor Mário Gatti.
Lembrei-me de que esse benfeitor já não
era da Terra e asserenei-me quanto pude.
Um pouco mais tarde, tomei contato com o
amigo da medicina que me amparava, além do outro benfeitor que se identificou
como sendo outro médico, o doutor Guilherme da Silva.
Aconselharam-me.
Esclareceram-me que a meningite fora
patente em meu caso, com todo o seu impacto fulminativo, entretanto, além
disso, trazia em meu cérebro estruturas complexas que haviam exigido trabalho
operatório.
Melhorei, gradativamente, no entanto, à
medida que me normalizava passei a escutar mamãe a chorar e chamar-me...
Com os dias, ouvi mais e escutei meu
querido pai articulando idéias e frases tristes.
Peço-lhes.
Quanto possível, lembrem-me trabalhando e
estudando a vida.
Não há morte.
A existência na Terra é uma internação em
estabelecimento de ensino.
Somos aí professores e alunos uns dos
outros.
O horário da escola é igual para todos no
mesmo universo de minutos para cada um, e o corpo, obedecendo às mesmas leis de
formação nos vários climas do mundo, é uma espécie de uniforme identificando a
condição temporária de todas as criaturas.
Papai, alegre-se e recorde-me aprendendo a
seu lado.
Mamãe, regozije-se e memorize a nossa
união e a nossa felicidade no lar.
Quanto puderem, ajudem-me com pensamentos
de fé e segurança, otimismo e elevação.
Chorar, sim, mas de alegria, para
agradecer a Deus o que temos recebido.
Estou apenas em outro educandário, onde
vou retomando o meu curso de conhecimento superior, no qual progrido dificilmente,
porque as emoções me prendem às aflições em casa.
Amigos daqui, como sejam Marcondes,
Servílio, Souza e tantos outros me abrem portas abençoadas às novas lições em
que vou tomando maiores contatos com a vida e comigo mesmo.
Digam à Therezinha, ao João Batista, ao
Doutor Wilson, ao Nicolau, ao Alcides, ao Tamassía e aos nossos companheiros de
estudo que eles todos estão no caminho certo.
É preciso estudar mais para servir melhor.
Aqui, a luta construtiva é sempre mais
bela.
E com essa luta desejo preparar-me a fim
de ser útil.
Dos familiares queridos, duas irmãs me
visitam e me auxiliam sempre que podem, nossa irmã Josefa e nossa irmã Isabel.
Espero melhorar faculdades e recuperar
sentidos obliterados pelas recordações mais intensas do corpo, a fim de elevar
o meu singelo campo de ação.
Peço-lhes.
Não creiam fossem meus queridos pais
talvez exigentes comigo nos processos de educação.
Sou feliz, buscando a felicidade que me
doaram pelos exemplos, pelo carinho, pelo apoio e pela dedicação.
A saudade é um espinho a ferir-me, mas com
a bênção de nossa união e paz em família, melhorarei cada vez mais, a fim de
sermos cada vez mais felizes.
Papai querido e querida Mamãe, a força
termina no lápis, assim com se apaga um engenho não mais sustentado pelo mesmo
padrão de energia.
Não estou cansado, mas o tempo e os
recursos do intercâmbio estão para mim esgotados.
Continuem orando por mim.
A prece por nós, que estamos deste
outro lado é uma luz que nos clareia e um calor abençoado que nos reaquece.
Por ela sabemos com mais certeza que o
nosso amor nunca morre.
Beijo-lhes as mãos queridas e despeço-me
no papel de modo a continuar em nosso diálogo, de coração a coração.
Pais queridos, recebam o abraço iluminado
de carinho e saudade, de devotamento e gratidão, com todo amor do filho
reconhecido, sempre e cada vez mais reconhecido,
Gabrielzinho
Bilhete de Gabrielzinho, aos 12 anos de
idade, dirigido ao pai:
“Campinas, 12 de agosto de 1960.
Querido papai.
O dia de hoje é uma data muito
significativa para mim. Isto porque é o “Dia do Papai”. Para expressar-lhe os
meus sinceros sentimentos escrevo-lhe esta cartinha a fim de dizer-lhe que eu o
quero muito e desejo felicidade. Como filho grato agradeço tudo que tem feito
por mim e ainda fará. Se ainda não correspondi a tudo que tem, eu aqui estou
para dizer-lhe que procurarei melhorar e fazer-me merecedor da estima que me
tem correspondendo assim à sua dedicação.
Obrigado papai por tudo, pelos bons
momentos que até hoje eu tive e pela verdadeira felicidade que somente encontrei
junto aos meus queridos pais.
Com um grande abraço aqui fica seu filho,
que no dia de hoje lhe dedica e lhe dedicará o mais profundo e respeitoso amor.
Beijando-lhe respeitosamente a mão
Gabrielzinho, seu filho.
Livro: Gabriel
Chico Xavier e Elias Barbosa/Gabriel Casemiro Espejo
Francisco Rebouças