O Cristo foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral, da
moral evangélico cristã, que há de renovar o mundo, aproximar os homens e
torná-los irmãos; que há de fazer brotar de todos os corações a caridade e o amor
do próximo e estabelecer entre os humanos uma solidariedade comum; de uma
moral, enfim, que há de transformar a Terra, tornando-a morada de Espíritos
superiores aos que hoje a habitam. E a lei do progresso, a que a Natureza está
submetida, que se cumpre, e o Espiritismo
é a alavanca de que Deus se utiliza para fazer que a Humanidade avance.
São chegados os tempos em que se hão de desenvolver as
idéias, para que se realizem os progressos que estão nos desígnios de Deus. Têm
elas de seguir a mesma rota que percorreram as idéias de liberdade, suas
precursoras. Não se acredite, porém, que esse desenvolvimento se efetue sem
lutas. Não; aquelas idéias precisam, para atingirem a maturidade, de abalos e
discussões, a fim de que atraiam a atenção das massas. Uma vez isso conseguido,
a beleza e a santidade da moral tocarão os espíritos, que então abraçarão uma ciência
que lhes dá a chave da vida futura e descerra as portas da felicidade eterna.
Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a concluirá. - Um
Espírito israelita. (Mulhouse, 1861.)
O Espiritismo é de ordem divina, pois que se assenta nas próprias leis da Natureza, e estai
certos de que tudo o que é de ordem divina tem grande e útil objetivo. O vosso
mundo se perdia; a Ciência, desenvolvida à custa do que é de ordem moral, mas
conduzindo-vos ao bem-estar material, redundava em proveito do espírito das
trevas. Como sabeis, cristãos, o coração e o amor têm de caminhar unidos à
Ciência. O reino do Cristo, ah! passados que são dezoito séculos e apesar do
sangue de tantos mártires, ainda não veio. Cristãos, voltai para o Mestre, que
vos quer salvar. Tudo é fácil àquele que crê e ama; o amor o enche de inefável
alegria.
Por essas palavras, Jesus claramente se refere à vida
futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como a meta a que a
Humanidade irá ter e como devendo constituir objeto das maiores preocupações do
homem na Terra. Todas as suas máximas se reportam a esse grande principio.
Apenas idéias muito imprecisas tinham os judeus acerca da
vida futura.
Acreditavam nos anjos, considerando-os seres privilegiados
da Criação; não sabiam, porém, que os homens podem um dia tomar-se anjos e
partilhar da felicidade destes. Segundo eles, a observância das leis de Deus
era recompensada com os bens terrenos, com a supremacia da nação a que
pertenciam, com vitórias sobre os seus inimigos. As calamidades públicas e as derrotas
eram o castigo da desobediência àquelas leis. Moisés não pudera dizer mais do
que isso a um povo pastor e ignorante, que precisava ser tocado, antes de tudo,
pelas coisas deste mundo. Mais tarde, Jesus lhe revelou que há outro mundo,
onde a justiça de Deus segue o seu curso.
A idéia clara e precisa que se faça da vida futura
proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes consequências
sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista
sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo
pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples
passagem, breve estada num pai ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa
vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de
curta duração, devendo seguir-se-lhes um estado mais ditoso. A morte nada mais
restará de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a
que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa mansão de
bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no lugar
onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe
daí uma calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.
O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga
horizontes novos. Em vez dessa visão, acanhada e
mesquinha, que o concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na
Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa
vida não passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador.
Mostra a solidariedade que conjuga todas as existências de um mesmo ser, todos
os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Faculta assim uma
base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da
criação da alma por ocasião do nascimento de cada corpo torna estranhos uns aos
outros todos os seres. Essa solidariedade entre as partes de um mesmo todo
explica o que inexplicável se apresenta, desde que se considere apenas um ponto.
Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender, motivo
por que ele reservou para outros tempos o fazê-lo conhecido.
O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis,
a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo.
Ele no-lo mostra, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como
uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma
imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, relegados para o
domino do fantástico e do maravilhoso. E a essas relações que o Cristo alude em
muitas circunstâncias e dai vem que muito do que ele disse permaneceu ininteligível
ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxilio da qual tudo se
explica de modo fácil.
Fonte: O Evangelho Segundo o Espiritismo
Francisco Rebouças