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domingo, 16 de dezembro de 2012

SEQUESTRO


No sentido de ampliar
Os pensamentos do Bem,
É que ouso comentar
A lição que vi do Além.

A viúva nobre e rica,
Dona Cecília Trindade,
Tinha um filho e duas filhas
Com destaque na cidade.

Certo dia, junto ao filho,
Tão pálida quanto a cera,
Mostra-lhe Dona Cecília
A carta que recebera.

Era um texto repulsivo
De cruel seqüestrador
Que lhe falava na escrita
Com menosprezo e rancor.

Que ela atendesse sem falta,
No que se punha a intimá-la
Cinqüenta milhões, não menos,
Ou, então, a morte à bala...

Que colocasse o dinheiro
Por entre jornais em monte,
Certa noite, em certa hora,
Debaixo de antiga ponte.

Nada dissesse à polícia,
Que agisse de “lábio mudo”,
Nada falasse a ninguém,
Se não mudaria tudo...

Rogava ao filho conselho
Contra o esperto marginal,
Esperando recorrer
Ao tato policial.

Mas o moço respondeu:
-“Escute, mamãe querida,
Nisso tudo, apenas vejo
A bênção de sua vida.

É preciso resguardar
Seus santos cabelos brancos,
Essa quantia é migalha
Do que já possui nos bancos.

Convém se evite a polícia,
Ponha o dinheiro em jornais
E fique livre de vez
Da mira de marginais”.

Mas a senhora, ao contrário,
Foi à polícia em segredo,
Pediu providências claras,
Falando firme e sem medo.

Orientada, a capricho,
Por antigo delegado,
Colocou todo o dinheiro
Sobre o terreno indicado.

A nobre dama, à distância,
Ficou serena, a contento,
Queria ver o desfecho
Do triste acontecimento.

Em hora escura da noite,
Um mascarado chegava,
Sem ver os homens atentos
Da guarda que o vigiava.

Quando tomou do pacote,
Eis que a polícia o esfacela...
Descobriu-se, então, que o morto
Era o próprio filho dela.

Livro: Bazar da Vida
Chico Xavier/Jair Presente

Francisco Rebouças