SOLILÓQUIO DE UM SUICIDA
Desse ponto admirável, extenso panorama se descortinava...
Noite clara e suave.
Um amigo lembra a prece e o grupo ora.
— Alguém da vida espiritual conosco, Chico? — interrogou um companheiro do Sul de Minas, depois da oração.
— Sim, disse o Médium — vejo um homem chorando ao seu lado.
— O nome dele?
— João Guedes.
— Sim, conheci. Era um pobre moço, Poeta, que morreu por suicídio, em minha terra.
— Desejará alguma coisa?
— Sim, ele diz que pretende deixar-nos uma lembrança. Alguém traz consigo papel e lápis?
Um dos companheiros presentes estende ao Médium o material solicitado.
E, apoiando-se num poste de iluminação pública, Chico escreve o que lhe dita o visitante do Além.
Quando terminou, estava grafada a seguinte poesia:
Os torvos corações, náufragos de mil vidas,
Distantes de Jesus, que nos salva e aprimora,
Sob o güante da dor, caminham de hora a hora,
Para o inferno abismal das almas consumidas...
Sementeiras de pranto, aflições e feridas,
No pecado revel que os requeima e devora...
Depois, a escuridão da noite sem aurora
E o sarcasmo cruel das ilusões perdidas...
Alma triste que eu trago, ensandecida e errante,
Por que fugiste, assim, no milagroso instante?
Por que rogar mais luz, se, estranha, te sublevas?
Ah! Mísera que foste, hesitante e covarde.
Não lamentes em vão, nem soluces tão tarde...
Procuremos Jesus, além de nossas trevas!
João Guedes
O moço, amigo do Poeta desencarnado, recebeu a página e guardou-a, enxugando as lágrimas.
Livro: Lindos Casos de Chico Xavier
Ramiro Gama
Francisco Rebouças
