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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A ÁRVORE E A FONTE

Maria Dolores

Era uma laranjeira de alto porte.
Muito perto da fonte que a nutria,
No recanto obscuro de um pomar...
Aves faziam dela um reino de alegria
Sobre o apoio do tronco largo e forte.

Quadro de paz e amor da Natureza:
A Árvore a farfalhar, entre as frondes felizes,
Os melros, os sabiás e os gaturamos
Tecendo ninhos nos seus ramos,
Uma fonte, alentando-lhe as raízes
E o céu azul ao Sol, cobrindo-lhe a beleza!...

Vegetal esquecido pelo dono,
Não se queixava de abandono,
Muito contrariamente, ao invés disso,
Era um palácio verde em constante serviço...
Abelhas tinham nele um refúgio e um tesouro,
A sorverem-lhe o mel dos frutos que lembravam
Pomos vestidos de ouro...
Mas, um dia, surgiu extenso bando
De homens sedentos e famintos
Que deram pasto franco aos seus próprios instintos,
Depois de enlamear a fonte de águas claras
Agrediram a nobre laranjeira,
Manobrando facões, pedras e varas
E, em estreitos minutos,
Despojaram-na, inteira,
De todos os seus frutos.

A fonte sempre calma
Guardou manchas e mágoas,
Lavando sobre a areia as suas próprias águas...

A árvore fez silêncio.
Maltratada e ferida,
Deitava a seiva em pingos quais se fossem
Densas gotas de pranto...

Os pássaros, no entanto,
Não choravam somente os estragos nos ninhos;
Entre arbustos vizinhos,
Lastimavam as duas benfeitoras:
A fonte que os mantinha em constante alegria
E a árvore de bênçãos protetoras
Que lhes doava o pão de cada dia...
E pipilavam com tamanha dor
Que pareciam todos juntos
Numa prece de amor,
Rogando a Deus, em voz enternecida,
Que a protegesse
E as refizesse para a luz da vida.

E Deus lhes atendeu aos rogos de ternura
Dentro de tempo breve, em verdes resplendores,
O tronco era, de novo, um palácio de flores
E a fonte era mais pura.
Nesse quadro do campo, alma querida,
Vejo-te a vida, - o tronco, - e a fé que sintetiza
A fonte linda do teu belo ideal,
Entre os pobres irmãos adversários
Da crença que nos guarda e nos eleva,
Sem saber que se fazem
Intérpretes da treva
E empreiteiros do mal
Tristes amigos irritados!...
Sei que te ferem, alma boa,
Entretanto, trabalha, ama e perdoa;
No tempo que se altera sobre o tempo,
Surgirão transformados!...
Os descrentes e os maus, na condição de ateus
São sempre corações desesperados
Com saudades de Deus
 
Livro: Alma e Vida
Chico Xavier/Emmanuel
 
Francisco Rebouças