A ovelha, a dracma e o filho pródigo
Relata Lucas que, certa vez, entrando Jesus na casa de um dos principais fariseus para tomar refeição, achegaram-se a ele muitos publicanos e pecadores para ouvi-lo.
Em sua muita indulgência, o Mestre a ninguém repelia, o que deu ensejo a que alguns circunstantes, escandalizados, se pusessem a murmurar, dizendo: Olhem só, como este homem acolhe os pecadores, e até come com eles.
Respondendo a essa crítica, Jesus pronunciou três parábolas em que salienta a solicitude de Deus para salvar os que se perdem.
Ei-las, tal como foram registradas por aquele evangelista:
“Qual de vós outros é o homem que tem cem ovelhas e, se perde uma delas, não deixa as noventa e nove, e vai buscar a que se havia perdido, até que a ache? E que, depois de a achar, não a põe sobre seus ombros, cheio de gosto, e, vindo a casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Congratulai-vos comigo, porque achei a minha ovelha, que se havia perdido? Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu sobre um pecador que fizer penitência, que sobre noventa e nove justos que não hão mister de penitência.
Ou que mulher há que, tendo dez dracmas, e, perdendo uma, não acenda a candeia e não varra a casa, e não a busque com muito empenho, até que a ache? E que, depois de a achar, não convoque as suas amigas e vizinhas, para lhes dizer: Congratulai-vos comigo, porque achei a, dracma que tinha perdido? Assim vos digo eu que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um -pecador que faz penitência.
Disse-lhes mais: Um homem teve dois filhos, e disse o mais moço deles a seu pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me toca. E ele repartiu entre ambos a fazenda.
Passados não muitos dias, entrouxando tudo o que era seu, partiu o filho mais moço para uma terra muito distante, país estranho, e lá dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente.
Depois de ter consumido tudo, sucedeu haver naquele país uma grande fome, e ele começou a sentir necessidades. Retirou-se, pois, dali e acomodou-se com um dos cidadãos da tal terra. Este, porém, o mandou para. os seus campos, a guardar os porcos. Aí, desejava ele encher a sua barriga de landes, das que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Até que, tendo entrado em si, disse:
Quantos jornaleiros há, em casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu aqui pereço à fome! Levantar-me-ei, irei procurar meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze de mim como de um dos teus jornaleiros.
Levantou-se, pois, e foi ao encontro de seu pai. E quando ele ainda vinha longe, viu-o seu pai, que ficou movido de compaixão, e, correndo, lançou-lhe os braços ao pescoço, para o abraçar, e o beijou.
E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Então disse o pai aos seus servos: Trazei depressa o seu melhor vestido, e vesti-lho, e metei-lhe um anel no dedo, e os sapatos nos pés; trazei também um vitelo bem gordo, e matai-o, para comermos e nos regalarmos, porque este meu filho era morto, e reviveu, tinha-se perdido, e achou-se. E começaram a banquetear-Se.
Seu filho mais velho estava no campo, e, quando veio e foi chegando a casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-Lhe que era aquilo. Este Lhe disse:
É chegado teu irmão, e teu pai mandou matar um novilho cevado, porque veio com saúde.
Ele então se indignou e não queria entrar; mas, saindo, o pai começou a rogar-lhe que entrasse, ao que lhe deu esta resposta: Há tantos anos que te sirvo, sem nunca transgredir mandamento algum teu e nunca me deste um cabrito para. eu me regalar com meus amigos; mas, tanto que veio este teu filho, que gastou tudo quanto tinha com prostitutas, logo lhe mandaste matar um novilho gordo.
Então lhe disse o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo que é meu é teu; era, porém, necessário que houvesse banquete e festim, pois que este teu irmão era morto, e reviveu, tinha-se perdido, e achou-se.” (capítulo 15)
Estas três parábolas, como se nota claramente, podem reduzir-se a uma só, pois sua ideia central é a mesma: a salvação de todas as almas.
Jesus previa, porém, que seus ensinamentos seriam desnaturados pelas agremiações religiosas, pressentia que iriam desfigurar completamente o caráter paternal de Deus, qual ele no-lo veio revelar, e, por isso, deixou-nos aqui esta tríplice afirmação do Seu amor e de Sua misericórdia, num solene e formal desmentido às penas eternas do inferno.
Livro: Parábolas Evangélicas
Rodolfo Calligaris
Francisco Rebouças