Uma questão de grande importância se apresenta naturalmente aqui: O exercício da mediunidade pode provocar o desarranjo da saúde e das faculdades mentais?
Há de se notar que esta pergunta, assim formulada, é a que colocam a maioria dos antagonistas do Espiritismo, ou, por melhor dizer, em lugar de uma pergunta, eles formulam o princípio em axioma, afirmando que a mediunidade leva à loucura; falamos da loucura real e não daquela, mais burlesca do que séria, com a qual se gratificam os adeptos.
Conceber-se-ia essa pergunta da parte daquele que cresse na existência dos Espíritos e na ação que podem exercer, porque, para eles, é alguma coisa de real; mas para aqueles que nisso não crêem, a pergunta é sem sentido, porque, se nada há, este nada não pode produzir alguma coisa. Não sendo essa tese sustentável, se entrincheiram sobre os perigos da superexcitação cerebral que, segundo eles, pode causar unicamente a crença nos Espíritos. Não retornaremos mais sobre este ponto, já tratado, mas perguntaremos se já se fez a enumeração de todos os cérebros virados pelo medo do diabo e os horríveis quadros das torturas do inferno e da condenação eterna, e se é mais prejudicial crer-se que se tem junto de si Espíritos bons e benevolentes, seus parentes, seus amigos e seu anjo guardião, do que o demônio.
A pergunta formulada da maneira seguinte é mais racional e mais séria, desde que se admita a existência e a ação dos Espíritos: O exercício da mediunidade pode provocar no indivíduo a invasão de maus Espíritos e suas conseqüências?
Jamais dissimulamos os escolhos que se encontram na mediunidade, razão por que multiplicamos as instruções, a esse respeito, em O Livro dos Médiuns, e não cessamos de recomendar o estudo preliminar antes de se entregar à prática; também, depois da publicação deste livro, o número de obsidiados diminuiu sensivelmente e notoriamente, porque ele poupa uma experiência que os novatos não adquirem, freqüentemente, senão às suas custas. Dizemo-lo ainda, sim, sem experiência, a mediunidade tem inconvenientes dos quais o menor seria ser mistificado por Espíritos enganadores ou levianos; praticar o Espiritismo experimental sem estudo, é querer fazer manipulações químicas sem saber a química.
Os exemplos tão numerosos de pessoas obsidiadas e subjugadas da maneira mais deplorável , sem jamais ouvirem falar do Espiritismo, provam super-abundantemente que o exercício da mediunidade não tem o privilégio de atrair os maus Espíritos; bem mais, a experiência prova que é um meio de afastá-los, permitindo reconhecê-los. No entanto, como os há que rondam ao nosso redor, e pode ocorrer, encontrando uma ocasião de se manifestarem, que eles a aproveitam, se encontram no médium uma predisposição física ou moral que o torne acessível à sua influência; ora, essa predisposição prende-se ao indivíduo e a causas pessoais anteriores, e não é a mediunidade que a faz nascer; pode-se dizer que o exercício da mediunidade é uma oportunidade e não uma causa; mas se alguns indivíduos estão neste caso, vêem-se outros deles que oferecem, aos maus Espíritos, uma resistência insuperável, e aos quais estes últimos não se dirigem mais. Falamos de Espíritos realmente maus e malfazejos, os únicos verdadeiramente perigosos, e não de Espíritos levianos e zombeteiros que se insinuam por toda a parte.
A presunção de se crer invulnerável contra os maus Espíritos foi mais de uma vez punida de modo cruel, porque não são desafiadas jamais impunemente pelo orgulho; o orgulho é a porta que lhes dá o acesso mais fácil, porque ninguém oferece menos resistência do que o orgulhoso quando tomado pelo seu lado fraco. Antes de se dirigir aos Espíritos, convém, pois, se armar contra o ataque dos maus, como quando se caminha sobre um terreno onde se teme a mordedura de serpentes. A isto chega-se primeiro pelo estudo preliminar que indica o caminho e as precauções a tomar, depois pela prece; mas é preciso bem se compenetrar da verdade, que o único preservativo está em si, em sua própria força, e jamais em coisas exteriores, e que não há nem talismãs, nem amuletos, nem palavras sacramentais, nem fórmulas sagradas ou profanas que possam ter a menor eficácia, se não se possui em si as qualidades necessárias; são, pois, estas qualidades que é preciso se esforçar em adquirir.
Se se estivesse bem compenetrado do objetivo essencial e sério do Espiritismo, se se preparasse sempre para o exercício da mediunidade por um apelo fervoroso ao seu anjo guardião e aos seus Espíritos protetores, se bem se estudasse a si mesmo, esforçando-se em purificar suas imperfeições, os casos de obsessão mediúnica seriam ainda mais raros; infelizmente, nela não vêem senão o fato das manifestações; não contentes com as provas morais que pululam ao seu redor, eles querem a todo preço se darem a satisfação de se comunicarem eles mesmos com os Espíritos, insistindo no desenvolvimento
de uma faculdade que, freqüentemente, não existe neles, guiados nisso, o mais
freqüentemente, pela curiosidade do que pelo desejo sincero de se melhorar. Disso resulta que, em lugar de se envolver de uma atmosfera fluídica salutar, de se cobrir com as asas protetoras de seus anjos guardiães, de procurar domar as suas fraquezas morais, abrem de par em par a porta aos Espíritos obsessores que talvez os tivessem atormentado de um outro modo e num outro tempo, mas que aproveitam a ocasião que se lhes oferece.
Que dizer então daqueles que se fazem um divertimento da manifestações e nelas não vêem senão um assunto de distração ou de curiosidade, e que nelas não procuram senão os meios de satisfazerem sua ambição, sua cupidez e seus interesses materiais? É neste sentido que se pode dizer que o exercício da mediunidade pode provocara invasão de maus Espíritos. Sim, é perigoso divertir-se com essas coisas. Quantas pessoas lêem O Livro dos Médiuns unicamente para saberem como nelas se prospera, porque a receita ou o procedimento é a coisa que mais lhes interessa! Quanto ao lado moral da questão, é o acessório. Não é preciso, pois, imputar ao Espiritismo o que é o fato de sua imprudência.
Retornemos aos possessos de Morzine. O que um Espírito pode fazer sobre um indivíduo, vários Espíritos podem fazê-lo sobre vários indivíduos simultaneamente, e dar, à obsessão, um caráter epidêmico. Uma nuvem de maus Espíritos pode invadir uma localidade, e ali se manifestar de diversas maneiras. Foi uma epidemia desse gênero que grassou na Judéia no tempo do Cristo, e, em nossa opinião, foi uma epidemia semelhante que causou estragos em Morzine.
É o que procuraremos estabelecer num próximo artigo, onde faremos ressaltar os caracteres essencialmente obsessionais dessa afecção. Analisaremos os memoriais dos médicos que a observaram, entre outros o do doutor Constant, assim como os meios curativos empregados, seja pela medicina, seja pelo recurso dos exorcismos.
Fonte: Revista Espírita – janeiro 1863.
Francisco Rebouças