O problema da expiação não é privativo dos irmãos encarcerados nas enxovias do mundo.
A justiça humana, em verdade, apenas corrige o companheiro infeliz que caiu, desprevenido, nas malhas do delito espetacular.
Entretanto, nas reentrâncias de cada instituto doméstico, a crueldade oculta ergue trincheiras de ódio e separação, tanto quanto desabotoa tormentas de sangue e lágrimas, gerando as garras da enfermida¬de, tantas vezes mensageiras da morte.
Aqui é a ingratidão para com os entes mais caros, ali, é a calúnia retalhando a esperança alheia.
Além, é a deserção do dever, fazendo com que os ombros do próximo sangrem, feridos, ao peso de cargas acumuladas; mais além, é a atitude agressiva, sustentada com dureza e paixão, exterminando a sementeira de paz naqueles que às vezes nos pedem unicamente um sorriso de bondade ou um gesto de perdão para que se renovem perante Deus.
É aí, nesses redutos silenciosos da batalha de cada dia, que, muitas vezes enganamos e traímos, indiferentes à dor que implantamos naqueles que nos partilham a marcha, amealhando fel e inquietação, de mistura com as bênçãos de amor e trabalho que procuramos entesourar.
No entanto, a Justiça Divina sabe joeirar nossos atos. E, nós mesmos, embora o carinho dos benfeitores abnegados que nos acolhem, no Mais Além, sem recursos para desculpar-nos, na intimidade da consciência, suplicamos o recomeço, renascendo na Terra, junto daqueles que se nos fazem credores nas trilhas da vida.
Sejam quais forem as nossas dificuldades no campo íntimo, saibamos aceitálas de ânimo firme, incinerando no crematório da renúncia os nossos próprios desejos para que a felicidade dos outros nos assegure a própria felicidade, porqüanto, conduzidos pela morte, ao império da Grande Luz, reconhecemo-nos, tais quais somos, aplicando a nós mesmos a lei do equilíbrio que determina a quem deve o reajuste preciso na base reta do ceitil por ceitil.
Livro: Nascer e Renascer
Chico Xavier/Emmanuel
Francisco Rebouças