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sexta-feira, 5 de março de 2010

Parábolas


Parábola dos dois filhos

Um dia em que Jesus, tendo ido ao templo de Jerusalém, ensinava ao povo, anunciando-lhe o Evangelho, chegaram-se a ele os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciães, e o interpelaram com que autoridade fazia tais coisas.

O Mestre redarguiu com outra pergunta, a que não souberam responder, e, porque ficasse evidente a hipocrisia deles, lhes propôs, em seguida, esta parábola:

“Que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, chegando ao primeiro, lhe disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele respondeu: Não quero. Mas depois, tocado de arrependimento, foi.

Falou do mesmo modo ao outro, que, respondendo, disse: Irei, senhor. Mas não foi.”

Dito isto, indagou: Qual dos dois fêz a vontade do pai?

Responderam eles: o primeiro.

Jesus então os censurou com estas palavras: “Na verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entrarão primeiro que vós no reino de Deus.” (Mat. 21:28-31)

Os dois filhos, nessa imaginosa e interessante parábola, constituem modelos das duas espécies de personalidade predominantes entre os terrícolas.

O filho que disse: não vou; mas depois, arrependido, foi, representa aqueles que, indiferentes aos ideais superiores, levam uma vida puramente mundana, deixando-se dominar pelos vícios e paixões que constituem o deleite de toda carne ainda não sujeita ao espírito.

Chega um dia, porém, em que, saturando-se das misérias da vida, enojados dos falsos prazeres, “caem em si”, descobrem os gozos e as delícias que a alma pode sentir na virtude e na prática do Bem, e então, sinceramente arrependidos, se regeneram, transformando-se em obreiros da “vinha do Senhor”.

O filho que disse: irei, senhor; mas não foi, personifica, a seu turno, os devotos sem obras, os que atravessam toda a existência procurando manter uma aparência de respeito e de religiosidade, que se mostram muito cuidadosos no tocante às “obrigações” estatuídas pelo culto tradicional, como se isso fôsse “tudo”, e, nessa enganosa suposição, não cogitam de vencer as suas fraquezas e imperfeições, nem se preocupam em realizar algo a benefício da coletividade.

Esses tais geralmente gozam de bom conceito, são tidos e havidos como pessoas inatacáveis, sentem-se orgulhosos e satisfeitos por isso; entretanto, não estão correspondendo ao chamado para o bom trabalho.

Incluem-se neste número os mentores religiosos de todos os credos, que deveriam guiar os membros de suas igrejas ao conhecimento da verdade e, com seus exemplos, edificá-los na observância às Leis de Deus, mas que, ou por desídia, ou porque se achem, absorvidos em questões de interesse material, não cumprem a elevada missão de que estão investidos.

Por isso é que Jesus, dirigindo-se aos sacerdotes, escribas e anciães, cujos deveres eram precisamente esses, lhes disse, sem rebuços, que “os publicanos e as meretrizes lhes levariam a dianteira para o reino de Deus.”

Publicanos e meretrizes simbolizam, aqui, os grandes pecadores, aos quais a sociedade tem como réprobos desprezíveis e indignos de qualquer auxilio divino.

Não obstante, o Mestre declara que eles entrarão no reino dos céus antes daqueles que contam com a aprovação social e já se consideram “salvos”.

É que esses pecadores, porque muito vêm a sofrer, adquirem sensibilidade, tornam-se acessíveis, e, quando tocados pelo amor, mudam de vida. Aproveitando, então, a experiência adquirida através de duras provas, alguns há que se tornam santos até, legando ao mundo exemplos admiráveis de verdadeiro renascimento espiritual.

Livro: Parábolas Evangélicas
Rodolfo Calligaris
 
Francisco Rebouças