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quarta-feira, 11 de março de 2009

Ante a luz da Verdade

Leda Maria Flaborea - ledaflaborea@uol.com.br
"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." - Jesus. (João, 8:32)

A palavra do Mestre é clara e segura. Mas, o que quis dizer com "conhecereis a verdade"? Pretendeu dizer que, no momento em que percebermos o sentido da vida, e que o sentido da vida significa crescer em serviço e burilamento constantes, compreenderemos que estaremos livres das amarras que ainda nos prendem a posições fantasiosas da realidade.

Vamos imaginar um bloco de mármore bruto que, sob as mãos do escultor e de ferramentas adequadas é transformado em obra a ser admirada pela beleza. E a pedra agradece ao instrumento que a maltratou, mas que tirou das suas entranhas o que tinha de mais sublime: a beleza. Ou então, vamos nos lembrar da lagarta feia, asquerosa - de quem muitos fogem - que, sob as leis da Natureza, se transforma em bela borboleta, agradecida ao feio corpo com que a Natureza lhe preparou vôo tão feliz. A pedra e a lagarta somos nós que, sob o trabalho das leis de Deus, nos transformaremos em seres luminosos, gratos ao Pai Criador que nos deu os instrumentos para nossa transformação: a inteligência, o livre-arbítrio e todas as suas leis, - leis de amor, justiça, progresso e trabalho - que representam as oportunidades que necessitamos para trabalharmos, em nós próprios em busca da beleza interior.

Quando Jesus completa seu ensinamento, alertando que o "conhecimento da verdade nos libertará", sabia que, inevitavelmente, caminharíamos para essa descoberta. O Mestre conhecia a alma humana e não ignorava a dificuldade que temos, ainda hoje, de afastar o véu que cobre nossa percepção em relação àquilo que deve ser feito. Preferimos fazer o que julgamos ser melhor, e não o que é mais útil para nosso crescimento espiritual. Temos o direito de escolher qual a nossa posição diante da luz, mas também o dever de assumir as conseqüências dessa escolha. Esse direito de escolha, esse livre arbítrio, é que permite ao homem edificar, traçar, conscientemente ou não, o caminho que desejar para sua existência.

No início de nossa evolução espiritual, nossas escolhas são limitadas, mas, à medida que crescemos, que evoluímos, maiores direitos de fazer certas escolhas vamos adquirindo e, assim, tomando conta, lentamente, das nossas vidas, passamos a ter o comando de nosso caminhar. Tal qual a criança no início da vida. Entretanto, quanto mais direitos temos de escolher, maiores responsabilidades assumimos ante essas preferências. Se voltarmos à nossa infância, poderemos nos lembrar das brincadeiras perigosas que fazíamos, colocando em risco a vida dos outros e a nossa própria, sem atinar com os perigos que essas escolhas traziam. Todavia, crescemos. Hoje, evitamos situações perigosas, porque sabemos e prevemos riscos a nós e aos outros. Mas, fazemos isso, por quê? Porque já vivemos experiências o suficiente que nos ensinaram a ver um pouco além do fato presente. E se hoje evitamos algum problema, é porque já aprendemos. Se hoje não roubamos, não é porque temos medo de sermos presos: é porque não faz sentido para nós apoderarmos de algo que não nos pertença.

É isso que acontece em relação a todas as nossas escolhas, sejam pelos nossos pensamentos, palavras ou ações. É por ainda estarmos caminhando, fazendo escolhas, às vezes certas, às vezes erradas, que Jesus nos deixou seus ensinamentos.

O sentido da vida não pode estar preso à visão estreita que ainda temos, quando nos prendemos apenas a aspectos da verdade, seja ela política, científica, filosófica ou religiosa. Acreditamos que parte da verdade seja a verdade inteira. Isso é o mesmo que dizer que alguém é mais ou menos honesto ou que uma mulher esteja meio grávida. Por termos essa visão parcial das coisas, é que nos entusiasmamos com "aspectos da verdade" e partimos proclamando-lhe os méritos, estendemos aos outros as lições recebidas, sem percebermos que a verdade libertadora, proclamada pelo Divino Amigo, é aquela que conhecemos no trabalho incessante no bem, em qualquer dos seus aspectos.E só nos tornaremos verdadeiramente livres para agir, quando pudermos discernir o bem do mal, a verdade da mentira, a luz da sombra. É da atuação de cada homem, plenamente livre, que se formarão no futuro as coletividades prósperas e harmoniosas, resultado do trabalho de todos, restaurando a justiça e a fraternidade.

Jesus sabia, ao nos passar suas palavras, que um dia nossas escolhas estariam harmonizadas, plenamente, com a Verdade Divina, com as deliberações superiores.

Penetrar nessa verdade é compreender as obrigações que nos competem. Sabemos o que devemos fazer, mas nos recusamos, porque nos dá trabalho, ou porque nos convém adiar para outro momento com vistas a outros interesses. Compreender essa verdade, à qual Jesus nos chama, é modificar o próprio entendimento da vida, transformando-a num campo de responsabilidade para com o que há de melhor. É importante lembrar que colheremos hoje ou amanhã o fruto de nossas obras. Logo, se podemos colher frutos doces, porque plantar sementes de frutos amargos?

Fazer o que deve ser feito nem sempre significa o que desejaríamos fazer ou que gostaríamos de fazer. Com a liberdade que já conquistamos, abusamos da força, esmagando os fracos, os oprimimos e os humildes, quando é regra geral das relações humanas que o mais forte proteja e ampare o mais fraco. E, se alguém pensar: "Eu não faço isso", ou, "Eu não sou assim", vamos olhar para dentro de nossos lares e ver o que fazemos com nossa força. Usamos mal nossa inteligência, confundindo os menos esclarecidos, buscando vantagens pessoais, seja com os que compartilham conosco da nossa intimidade, seja com companheiros de trabalho ou com irmãos que nos são desconhecidos.


Sem as aquisições elevadas, baseadas nos ensinamentos de Jesus, a liberdade nos leva, pelas nossas imperfeições, a enormes débitos diante da Lei Divina e à vivência de amargas aflições, já nesta encarnação. Assim, quando cumprimos fielmente o dever que nos cabe, quando nos integrarmos pelo coração e pela inteligência aos preceitos morais e fraternais do Evangelho, seremos livres e seremos livres, porque nossa consciência nada nos cobrará.

Bibliografia

Emmanuel (Espírito). Fonte Viva, [psicografia de F.C.Xavier], 16ª edição - FEB Editora - Brasília, DF, lição 173, 1988.
________________, Vinha de Luz, idem - 14ª edição - FEB Editora -Brasília, DF, lição 93, 1995
________________, Palavras de Vida Eterna - ibidem - 20ª edição - Edição CEC - Uberaba, MG - lição 44, 1995
Peralva, Martins - Estudando o Evangelho - 6ª edição - FEB Editora - Brasília, DF -
lição 30, 1992.